Carta à minha neta… ou neto

Vais nascer num país distante e, ainda que o mundo se tenha tornado muito mais pequeno nestes meus 32 anos de mãe, vai ser grande o aperto de não te ter sempre perto. Podia entristecer-me e esmorecer como muitas, muitas outras avós portuguesas que acreditaram que a democracia inaugurada no dia 25 de abril de 1974 lhes traria um país próspero e feliz para embalar filhos e netos. Mas não. Não entristeço. Acredito que Portugal é muito mais que um território e uma nação. Acho mesmo que a Terra é una e de todos. E os portugueses sempre tiveram uma natureza ousada, de curiosidade e de apreço por outras paragens distantes. Por isso, meu rebento, honra-me este contributo para o esboroar de fronteiras e o expandir da portugalidade.

No entanto, tudo farei para que sintas este País como teu. Um País singular, com uma natureza amável e um povo que aqui se tem construído, numa história longa de mandos, desmandos e lutas, e que todos os anos, neste dia de abril, se veste da palavra mais bonita – liberdade!

Como canta um dos nossos poetas, “só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação” e nisso ainda estamos a caminho, é certo, por isso vais nascer longe, onde esse caminho terá levado mais além. Mas o poeta também cantou que “Só há liberdade a sério quando houver Liberdade de mudar e decidir” e nisso, acredita, temos boas lições para dar. A nossa revolução de cravos em espingardas enraizou num querer e não querer que sempre exprimimos numa matriz de democracia que muito prezamos e nos esforçamos por qualificar. É isso que faço aqui, hoje, no Salão Público e Nobre da minha cidade, que será também uma das tuas, dizendo a todos que só há fortes razões para acreditar no valor da Liberdade, única forma justa de se construírem futuros, sem muros, abraçando a Terra. Falo eu aqui, para ti, como pessoa livre, mas representando muitas outras que me elegeram livremente para este afeiçoar da nossa democracia, para que este bocadinho do nosso País possa acolher a todos, os seus e os outros, numa comunhão de vida boa e solidária, que dê novo fôlego ao coração antigo que nela bate, que sempre foi forte no humanismo, ciência e cosmopolitismo.

Sabes que temos uma universidade das mais antigas e bonitas, de onde exalaram saberes pioneiros? Sabes que há 50 anos os jovens estudantes ousaram afrontar a velha e negra ditadura que atrasou o País meio século? Perguntamos por eles, hoje, e não os vimos todos investidos de saber e valores nas frentes das novas lutas urgentes pela sustentabilidade desta nossa Terra. Mas, pelo menos, vimo-los, quase todos, nesta celebração da liberdade, primeiro rio essencial para salvar os mares amnióticos da Humanidade.

Por falar em rio, irás conhecer o nosso Mondego, aorta desta nossa natureza fértil e poética, a aguardar gestos mais firmes na sua valorização e cuidado, pronto para se deixar admirar e fruir em toda a sua generosidade. Chamavam-lhe “Bazófias”, porque tanto inchava e inundava as margens, no inverno, como se encolhia e deixava ao sol o seu leito seco, no verão. Hoje dominou-se a sua corrente e a cidade tem um espelho de água magnífico para se recriar, mas o jeito de “bazófia” ficou muito impresso no jeito das políticas e perdemos muito tempo a “mudar e decidir”. Eu, e o grupo de cidadãs e cidadãos a que pertenço e aqui represento, comprometemo-nos a desafiar e desmobilizar estas bazófias políticas e a acelerar a ação de um rio determinado a fazer desta nossa Cidade e seu Concelho o tal lugar de referência e acolhimento, que merecem todos os nossos filhos e netos, como nós, filhos de Abril, da Liberdade e da Democracia.

Em 2027, quando tiveres 8 anos, queremos e cremos que Coimbra será uma das Capitais Europeias da Cultura. Não, não é bazófia! Esta nossa e tua Cidade pode mobilizar-se para fazer pontes com o passado, com o futuro, com o Mundo, e, através da Cultura, que é o que nos distingue e une a todos, renovar as esperanças e expetativas de uma civilização diferente, que busque pão e rosas para todos. 

Esta imagem, de uma Lenda bonita desta nossa cidade, explico-ta depois, quando nos juntarmos em português, a 5ª língua nativa mais falada. Sabias? Também temos um poeta que escreveu “A minha Pátria é a língua portuguesa”. Pois que seja também uma das tuas e que aprendas a dizer Coimbra, sem saudade, mas com muito orgulho.

 

Comemorações da revolução de ABRIL

Graça Simões, Coimbra, 25 de Abril de 2019

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