O que eu quero para Coimbra

RaymondDepardon

Isabel Prata

Não ‘sou’ de Coimbra porque sempre fui apressada. Estando tudo programado para aqui nascer, resolvi que tinha que vir ao mundo umas semanas antes e troquei as voltas ao destino e à minha mãe.
Depois acompanhei os meus pais na sua diáspora por terras de Portugal, ora aqui, ora ali. Mas sempre regressando a Coimbra, a casa da bisavó Maria do Carmo, de onde se viam os néons da Portagem, oh fascínio, e onde adormecia a ouvir os ‘pantufas’ e os ‘tlim tlins’ dos eléctricos que passavam na Ferreira Borges e na Visconde da Luz.
Como já cá ando há algum tempo, não posso dizer que Coimbra não mudou desde esses remotos anos, os néons foram substituídos, já nem sequer há eléctricos, as casas da rua da bisavó Maria do Carmo ficaram muito mais velhas, de fachadas esfareladas, nalgumas delas mora gente sem luz por não terem como pagar a factura, noutras, em muitas outras, não mora ninguém, os prédios cresceram como cogumelos, mesmo quando não têm quem os habite. Evidentemente, muitas coisas mudaram para melhor, os HUC têm agora umas instalações muito modernas e higiénicas, a cidade reconciliou-se com o rio depois das lavadeiras o terem abandonado (e ainda bem que o abandonaram por muito típico que fosse o postal), a Universidade cresceu em tamanho e importância, internacionalizou-se.

Quando morava em Santa Clara, há poucos anos atrás, ao passar a ponte havia um momento em que a colina da Universidade se reflectia em todo o seu esplendor no espelho do carro – Coimbra é uma cidade tão bonita… por mais vezes que eu passe a ponte e veja a colina no retrovisor…

Mas que pena que os prédios tenham crescido como cogumelos, mesmo quando não têm quem os habite, que as lojas da Baixa estejam fechadas, mesmo se cobertas de desenhos de crianças, que a Universidade se tenha também transformado num grande e selvagem parque de estacionamento com uma torre a espreitar, que a zona do vasto e moderno hospital seja outro imenso parque de estacionamento que põe em causa a segurança de quem tem que lá ir, e que não haja soluções à vista. Que pena que eu tenha que ouvir, uma e outra vez, o desdém dos que agora estão fora, Coimbra? em Coimbra ‘no pasa nada’.
Se tinha que ser assim? Claro que não tinha que ser assim. Coimbra tem todas as condições para ser uma cidade aprazível, culta, democrática e justa. Haja quem a queira e saiba assim fazer e governar. E é isso que eu quero para Coimbra.

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